
Brasília, 7 de agosto de 2026.
Ter água tratada e coleta de esgoto ainda é uma realidade distante para milhões de brasileiros. Embora o país tenha ampliado os investimentos no setor nos últimos anos, o acesso aos serviços continua marcado por profundas desigualdades regionais, sociais e estruturais. Enquanto alguns municípios já alcançaram a universalização do saneamento, outros convivem com redes insuficientes, ausência de tratamento de esgoto e falta de regulação capaz de garantir a continuidade dos investimentos.
Os números ajudam a dimensionar esse cenário. Mais de 30 milhões de brasileiros ainda não têm acesso à água potável e cerca de 90 milhões vivem sem coleta de esgoto. Um estudo do Instituto Trata Brasil sobre saneamento e saúde mostrou que, em 2024, o país registrou 344,4 mil internações por doenças relacionadas ao saneamento ambiental inadequado e, no ano anterior, 11,5 mil mortes evitáveis por essas mesmas enfermidades.

Para a presidente-executiva do instituto, engenheira civil Luana Pretto, a desigualdade no acesso ao saneamento tem forte recorte regional. "Entre 2020 e 2024, a região Sudeste concentrou R$ 57,3 bilhões em investimentos, mais da metade do total nacional, enquanto o Norte recebeu apenas R$ 5,3 bilhões, cerca de 4,7%."
Segundo ela, essa diferença se reflete diretamente na qualidade dos serviços. No Ranking do Saneamento 2026, os 20 municípios com pior desempenho estão concentrados nas regiões Norte e Nordeste, incluindo sete capitais. Além disso, moradores de áreas rurais e comunidades vulneráveis sofrem a falta de serviços básicos e enfrentam maiores dificuldades por dependerem de soluções adaptadas às características locais.
Um outro levantamento do Instituto Trata Brasil sobre a Bacia do Rio Pinheiros, em São Paulo, mostra o impacto dessa desigualdade. O benefício médio da melhoria do saneamento para a população da região foi estimado em cerca de R$ 5,3 mil por habitante. Nas comunidades urbanas mais pobres, porém, esse ganho sobe para R$ 12,2 mil por pessoa — quase R$ 7 mil a mais. Para Luana Pretto, isso confirma que, quando o investimento em saneamento chega, a população mais vulnerável é a que mais se beneficia.
Coletar esgoto não significa tratá-lo
A coleta e o tratamento de esgoto são outro ponto crítico e o Brasil tem um déficit expressivo em ambas as etapas, mas em intensidades diferentes. A diretora da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (Abes), entidade do Sistema Confea/Crea, a engenheira civil Mickaela Midon, explica que quase 90 milhões de brasileiros sequer contam com rede coletora. Em muitos casos, o esgoto é lançado diretamente no solo ou em cursos d'água. Mesmo onde existe coleta, parte significativa desse volume não recebe tratamento adequado antes de retornar ao meio ambiente. "Ou seja, mesmo quando a rede coletora chega até a casa, isso não garante que o esgoto será tratado depois — e é justamente essa lacuna entre 'coletado' e 'tratado' que costuma ficar invisível nos indicadores mais simples de cobertura", observa a mestre em engenharia ambiental e sanitária.

Mickaela também alerta que nem todo tratamento é suficiente para remover a carga poluidora, o que afeta a qualidade dos rios e aumenta a complexidade do tratamento da água captada para abastecimento humano. “Por isso a desigualdade de acesso não se resume a ‘tem ou não tem rede’: ela também está na qualidade real do que é entregue e devolvido ao ambiente”, salienta.
Quem mais sofre com a falta de saneamento
A ausência dos serviços básicos atinge principalmente a população de menor renda. De acordo com uma pesquisa do Instituto Trata Brasil sobre o perfil de quem vive sem saneamento, 70,2% das pessoas sem acesso à rede de água tratada viviam abaixo da linha da pobreza em 2022. Jovens com menos de 20 anos, pessoas pretas, pardas e indígenas estão entre os grupos mais afetados, especialmente em comunidades urbanas, áreas rurais e núcleos informais.
Além das desigualdades sociais, a presidente do Instituto Trata Brasil chama atenção para os desafios institucionais. "Hoje, 963 municípios brasileiros, com cerca de 20 milhões de habitantes, não têm nem agência reguladora cadastrada na ANA, e mesmo entre os que têm, só 29 das 82 agências comprovaram aderência integral às normas de referência. Sem regulação forte, esses municípios ficam mais vulneráveis a contratos mal estruturados e a investimentos que não avançam", pontua Luana.
O que falta para universalizar
Apesar dos avanços registrados desde o Marco Legal do Saneamento, que estabeleceu metas de 99% de cobertura de água potável e 90% de coleta e tratamento de esgoto até 2033, especialistas avaliam que o principal desafio continua sendo acelerar os investimentos e fortalecer a gestão pública. O volume investido por habitante cresceu 51% nos últimos seis anos, e já existem mais de R$ 420 bilhões em projetos contratados que devem beneficiar mais de 100 milhões de brasileiros. Ainda assim, o tratamento de esgoto alcança apenas 51,8% da população, muito distante da meta de universalização.
Para Luana Pretto, o principal desafio é ampliar os investimentos e fortalecer a regulação. "A prioridade número um é fechar o gap de investimento. Hoje o país investe R$ 137,02 por habitante ao ano em saneamento, mas o Plano Nacional de Saneamento Básico estima que seriam necessários R$ 225, algo como R$ 48 bilhões por ano até 2033, um patamar que nunca foi atingido. É preciso ainda fortalecer a regulação local, para que as agências consigam, de fato, fiscalizar metas e investimentos, e avançar na regionalização, unindo municípios pequenos e rurais a blocos maiores, já que hoje eles são justamente os que ficam de fora da atratividade dos grandes projetos", ressalta a engenheira.
Já Mickaela Midon defende medidas capazes de tornar os sistemas mais eficientes, como redução das perdas de água nas redes de distribuição, ampliação do reuso de efluentes tratados, integração entre bases de dados de infraestrutura, saúde e recursos hídricos, e maior presença de profissionais habilitados em obras de saneamento. “É um eixo prioritário ampliar a fiscalização e a responsabilidade técnica, com Anotação de Responsabilidade Técnica, a ART, em obras de saneamento, sobretudo em municípios pequenos e áreas rurais, onde a ausência de profissionais registrados costuma resultar em soluções mal dimensionadas e de vida útil curta”, conclui a especialista.

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Julianna Curado
Equipe de Comunicação do Confea
Fotos: Arquivo pessoal e Freepik
